Acabou sem ter começado. Venha daí a santa insolvência, ou para quem quer dizer as coisas pelos nomes: pode falir o projecto mas não me responsabilizem a mim, Américo Augusto Areal, por má gestão. Pode a sua empresa ficar a arder em alguns milhares de euros, mas não me lixem que eu quero a minha casa na Foz e as fotos pomposas com a Isabel Pires de Lima e ser o maior do mundo porque o meu projecto é que era e ninguém reparou que o meu projecto é que era.Fiquei a arder. Assim, sem mais: bem chamuscado. Porque uma pequena editora como são todas - salvaguardando os citados tubarões (Porto Editora, Leya, Presença, Gradiva, Bertelsmann) - precisa de sítio onde colocar os livros. De bybliófilos. De confiar para ter alguma visibilidade. Não se podem dar ao luxo de não fornecer. Ou podem? Deixo a pergunta. Pedir um cheque caução: não davam. Não fornecer? E quem explica isso aos autores e leitores?
Enfim, agora quem vier atrás que carregue no botão, disse bem o Pedro Vieira. Disseram bem o José Mário e mais ainda. Disseram todos bem de como é impressionante a maneira como se tratam os fornecedores. Vou contar. Não resisto. Vou contar. A Byblos pagava (ou dizia que pagava) a 120 dias. 120, meus queridos, 120. A Byblos pedia um desconto de 40% sobre o preço de capa. 40%, meus querido, 40%. A Byblos nunca, desde que em Fevereiro vendi o primeiro livro e coloquei uma consignação, me pagou um tostão. Um tostão que fosse. Mas a culpa não é deles. Fevereiro com quatro meses (120 dias) dá Junho. Metem-se as férias. Depois em Setembro é o escolar. Outubro e Novembro o grande veículo de espantosa gestão estaria a pensar no Natal, pagar não dava. Em Janeiro devolvia-se tudo e vinha o acerto ("sem a nota de crédito não podemos efectuar o pagamento", parece que estou a ouvir, mesmo que a nota de crédito fosse de 20,34 euros e o pagamento devido - desde Junho - de 3 409, 89 euros). Depois era a Feira do Livro e a Byblos iria ter um grande e maravilhoso stand. Depois vinham as férias, e desta maneira podemos ir vivendo à custa dos fornecedores.
Mas, meus amigos, acham a Byblos a única? Eu consegui ir buscar os livros há quinze dias, depois de dizer que ia facturar tudo e meter tudo em tribunal. Ah, o tribunal. Agora o Estado quer o seu - que está em atraso (aposto como a segurança social também quer o seu) - e depois há os bancos. Os fornecedores? Que carreguem no botão. Mas dizia: a única? Deixem-me rir, dizia o Jorge Palma. O pão nosso de cada dia é este. Os editores que carreguem no botão.
Sabem porquê? Porque isto está tudo errado. Culpa? Dos editores. O quê? Deu-lhe uma coisa, pensam. Sim, dos editores. Para quando o fim da estúpida forma de fornecer a firme com direito total a devolução? Eu proponho: forneça-se a firme sem direito a devolução ou forneça-se à consignação com apuramentos das vendas pelas vendas reais. A Loja das Quasi abriu há uma semana. É impossível fazer perceber aos fornecedores que é uma coisa pequena, que vai ter poucas vendas, que vamos andar a dar dinheiro às transportadoras com as devoluções. Impossível. E nós não indexamos as devoluções aos pagamentos, pagamos sem devolver nada para abater. O que quer dizer que vamos adiantar dinheiro sobre o que ainda não vendemos. Não tem mal, pensam os editores. Assim vemos o dinheiro deste lado. Sim, mas de que vendas? E se não houver vendas? Tomei uma decisão e agora e é mesmo: a partir de segunda-feira só entram livros na Loja das Quasi se vierem à consignação. Faremos reposições a firme e acertaremos stocks mensalmente. Quer isto dizer que se vendermos e não acharmos necessária a reposição tentaremos dar conta ao fornecedor dessa venda para que se envie a factura. Estou cansado de me queixar e cansado de sentir que não posso fazer nada. Posso: a Loja das Quasi será gerida como nós queremos. É claro que não temos a equipa de gestão da Byblos, maravilhosa, fantástica, um administrador com anos de negócio que sabe de tudo e ainda de mais alguma coisa. Mas tentaremos.
Se tivesse sido assim, talvez a Byblos não tivesse fechado. Ou se fechasse, talvez tivesse de ter enviado um cheque caução para se ver a sua boa fé. Boa fé? Não houve. Ouvi dizer um dia que para Américo Augusto Areal a Byblos era como um melão, só se sabia se ia dar depois de aberto. Com uma tão boa gestão, nada como reparar que estava podre desde o começo.
[Em cima, o antigo dono da ASA II (II? 2? Pensem lá porque será...)]
4 comentários:
Não estive na Byblos desde o início, mas quando entrei no barco apercebi-me quase de imediato que algo se passava, mesmo sem perceber patavina de gestão...Não era normal não recebermos as novidades! (ok,lá vinha a treta de que éramos sobretudo uma livraria de fundo de catálogo!Tretas!).Incomodava-me ter que responder aos clientes que essas novidades estariam para chegar...Preocupavam-se mais com a merda das fardas (tipo homens da Carris) do que com aquilo que faria mexer a Byblos...Vão declarar a insolvência...O "Sr." Areal pode ficar em casa a comer a sopinha da mulher...Os trabalhadores que se lixem...Ah! Já me esquecia: O problema da Byblos foi a conjuntura! Tramada essa gaja!
"dar visibilidade aos livros dos pequenos editores": no meio de milhares de livros terão os pequenos editores mais visibilidade do que numa livraria onde o livreiro sabe dar destque ao que realmente o merece? Sim, o livreiro: falo das livrarias que ainda têm à frente gente que realmente gosta dos livros e faz dela e deles a sua casa onde, onde recebe os clientes como amigos... A esses, como eu própria, a Quasi só fornece a pronto pagamento, crédito nem a 30 dias, quanto mais a 120 e consignações nem vê-las...!
"dar visibilidade aos livros dos pequenos editores": no meio de milhares de livros terão os pequenos editores mais visibilidade do que numa livraria onde o livreiro sabe dar destque ao que realmente o merece? Sim, o livreiro: falo das livrarias que ainda têm à frente gente que realmente gosta dos livros e faz dela e deles a sua casa onde, onde recebe os clientes como amigos... A esses, como eu própria, a Quasi só fornece a pronto pagamento, crédito nem a 30 dias, quanto mais a 120 e consignações nem vê-las...!
Ora ora Jorge Reis-Sá!
Jorge,
a minha opinião.
http://ruadaescola.blogspot.com/2008/11/ainda-acerca-da-byblos-variao-em-si.html
Cara Liliana
em breve colocarei um post sobre o assunto, pertinente, de que fala. Obrigado
Jorge
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