Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

Viver da Escrita / Viver para a Escrita

Um dos maiores enganos acerca da profissão de escritor é este: não se consegue viver da escrita. Consegue. E eu vou dizer como.

Um escritor deverá trabalhar oito horas por dia. Como, digamos, mais de um terço desse trabalho deve ser ler em vez de escrever, ficam umas 5 horas por dia para a criação. Partamos do princípio que um escritor quer receber um salário de 1.500 euros por mês (que para alguém que está a começar – e é desse escritor que falo – não é um salário mau).

Claro que, num ano, três meses serão para promoção do romance que entretanto escreveu. Assim, fica apenas com 8 meses a 5 horas por dia, 5 dias por semana (um escritor também tem férias e fins de semana). Partamos do princípio que ele nem é o José Rodrigues dos Santos – que escreve 15 páginas por dia – nem o que dizia que colocava uma vírgula de manhã para a retirar à tarde. Que escreva 3 páginas por dia. Isto dá, para um romance de 240 páginas, 80 dias úteis de trabalho. 16 semanas, para ser mais exacto. 4 meses. Dois meses de revisão, sobram outros dois para outras coisas. E porque é que essas outras coisas são importantes?

Porque mesmo com três meses de promoção, o escritor pode vender só 2 000 exemplares. E 2 000 exemplares a 15 euros de preço de venda ao público vezes 10% de direitos: 3 000 euros. Assim, a coisa não está pelo melhor. Trabalhou 6 meses e só recebeu dois. E ainda faltam o salário dos meses de promoção e as férias. Mas já lá vamos.

As outras coisas são o quê? Crónicas. Textos para concorrer a prémios literários. Encomendas. Peças de Teatro. Letras de música. Tudo o que um escritor pode rentabilizar na sua actividade. Assim, sem lirismo. Um escritor escreve, não é? Se for bom escritor e tiver algo a dizer e de uma maneira bem dita, escreverá para um jornal uma crónica semanal e para uma revista literária mensal, outra. Ou quem diz isto, diz com valores semelhantes a bula de medicamentos ou peças de teatro, bailado, argumentos de cinema, etc. Tem dois meses a cinco horas por dia para rentabilizar. E uma crónica não lhe demora mais de três horas a escrever. Assim, de crónicas gasta 12 horas por mês para o jornal e 3 horas por mês para a revista. Uma semana por mês, quase. E quanto recebe? Não é nem o Miguel Sousa Tavares nem o pobre que escreve de graça. Recebe 250 euros por crónica para cada um dos sítios. Ora: 250 euros vezes cinco crónicas:. 1 250 euros. Quer isto dizer que por mês ele recebe destas “outras coisas” quase o valor necessário para pagar o seu salário. E ainda tem mais mês e meio para fazer render (até concedo que aumente o tempo para ler, coisa importante e fundamental). Mas não está aqui uma encomenda da Egoísta. Uma peça de teatro para a Seiva Trupe ou as letras do novo álbum da Mafalda Arnauth. Nem, claro, as edições no estrangeiro, para as quais terá um agente.

Assim, temos por mês, seguros aos 2 000 exemplares de venda do romance (que é um flop brutal se for com esses números – pelo menos para quem faz da escrita a sua vida e tem três meses inteirinhos para o promover) e às crónicas ou afins, 1250 euros mais 250 dos direitos (3000 euros a dividir por 12): 1 500 euros.
Que vos parece? Dá ou não dá para viver da escrita?

Dá. Não dá é para querer ser o Herberto Helder e viver da escrita. Para não promover o livro nem fazer letras de música ou crónicas porque corrompe a sua Arte. Arte? Com maiúscula? Por favor perguntem ao senhor Rodrigues que vende os jornais ali no quiosque se ele não vende a Casa Cláudia e a Caras. Ou ao senhor Costa, do talho, se só vende carne da vazia. Pois é. Se é para Arte, assim, sem mais, o "escritor" que vá trabalhar para as obras e que escreva nas horas vagas.

Ou se quer viver da escrita ou se quer viver para a escrita.

São coisas muito diferentes. Pelo menos para o estômago que vai receber os pregos que o senhor Costa também vende.

5 comentários:

AM disse...

Há, claro, só para chatear, o pequeno problema dos editores que obrigam a que o autor fique com considerável quantidade de exemplares a preço de banca (o que feitas as contas leva a que os 2000 exemplares vendidos do fiasco dê aproximadamente para o custo dos exemplares que teve de arrecadar (pode sempre vendê-los em mercado paralelo tipo feira da vandoma com direito a sessões de autógrafos e tudo). Depois existe também aquele pequeníssimo problema que é as revistas e jornais também não têm por hábito contratar cronistas que ninguém conhece ainda que estes sejam os mais geniais escritores e/ou opinion makers, a ter de pagar contrata-se a cara bonita que apresenta o mais recente concurso que mesmo que escreva mal vale pela fotografia.
Portanto ordenadinho de 1500euros por mês? e férias e assim... de facto não estou bem a ver...

Jorge Reis-Sá disse...

Cara Alexandra
obrigado pelo seu comentário. Quando um autor concorda em comprar 200 exemplares não está a publicar numa editora, antes a ver ser-lhe prestado um serviço de edição. E isso acontece maioritariamente a pessoas para quem a escrita é um passatempo mas que gostavam de ver o seu livro publicado. Falo de outra coisa, como bem reparará. Quanto aos cronistas: se for "o mais genial escritor e / ou opinion maker" arranja quem lhe compre as crónicas, acredite. Pode não ser à primeira, nem à segunda, mas arranja. Agradeço a sua opinião, mesmo não concordando em absoluto com ela.
Jorge

Fir disse...

Caro Jorge,

eu suspeito que se todos os romancistas desatarem a escrever crónicas, não há mercado que chegue. E também suspeito que sem amigos em jornais e revistas, há-de ser difícil vendê-las (quem diz crónicas, diz peças de teatro, letras de canções, argumentos de cinema, receitas de pastéis de bacalhau e horóscopos).
Se calhar, estou a ser céptico demais e por isso peço-lhe que me ajude, que me explique melhor. Diga-me o que posso fazer para vender os meus serviços a um jornal, a uma revista, a uma companhia de teatro, a uma produtora de cinema.
Ficar-lhe-ei eternamente grato, acredite.

Marcos Rezende disse...

Gostei muito do texto. Sou um escritor brasileiro e pretendo viver somente disso em um futuro próximo. Uma sugestão para um próximo tema é: Como prospectar (divulgar) o seu trabalho para revistas e jornais de maneira a lhe contratarem futuramente como colunista assíduo do canal de comunicação? Forte abraço!

Francisco del Mundo disse...

Jorge, dá-me 750 euros por mes, escrevo-te dois livros por ano..;)
Abraço

PS- E bons...