O regulamento do Prémio Leya foi tornado público há alguns meses. No dia 16 deste mês terminaram os prazos para entrega dos trabalhos. Entre a sua publicação e a data a que escrevo não vi ninguém a dizer o que é de mais elementar justiça ser dito: o Prémio Leya é um embuste. Direi porquê.Há duas razões fortíssimas para a minha afirmação: uma delas de carácter processual; outra de carácter substancial.
A processual: o júri não vai ler os originais. Quando alguém concorre a um prémio que tem como júris Manuel Alegre, Pepetela, José Carlos Seabra Pereira ou Nuno Júdice (e que certamente estão a ser pagos pelo seu trabalho, o que é justo) espera que esse júri leya os originais. Que o dinheiro que recebe seja para mais do que ler relatórios. O que nos informa o regulamento, no entanto, é que serão efectuados por uma comissão nomeada pela Leya relatórios a todas as obras. Dessas, essa comissão escolherá dez que voltará a ler e depois a voltar a efectuar outro relatório.
(Uma nota: não quero por em causa o processo, mas eu confio inteiramente no júri, pessoas cuja honestidade é pública e acima de qualquer suspeita, e sei que nunca abririam um envelope antes de se saber quem é o vencedor sob anonimato. Mas eu não sei quem é a comissão que vai ler os originais, pelo que não posso confiar neles.)
Pela comissão, só esses dez dos originais serão entregues ao júri. Dos restantes serão entregues relatórios. Alguém me explica como é possível fazer um relatório de um livro do Lobo Antunes? Do Saramago? Do Agualusa? Do Pepetela? Da Lídia Jorge? “Bem escrito, com uma trama de difícil compreensão, utilização de imagens muito conseguida, infelizmente só com um ponto final no fim de cada capítulo o que cansa” (Lobo Antunes); “Bem escrito, inovador devido ao uso das vírgulas e da oralidade assim provocada, metáfora das sociedades contemporâneas, há um cão que lambe lágrimas” (Saramago). É possível fazer de um escritor que tem um estilo tão próprio um relatório? Mais: e se a menina ou menino que está a ler não gostar do estilo? Do do Gonçalo M. Tavares, do do José Luís Peixoto, do do Jacinto Lucas Pires. O Nuno Júdice e o Pepetela não têm acesso ao livro que está “relatado”? Podem pedi-lo, pelos vistos, mas se aceitarem as recomendações da comissão, nem se darão ao trabalho de pedir o livro para lerem. Acho inadmíssivel tal coisa. Seja para os autores que concorrem, seja para a entidade que patrocina o prémio, seja para o próprio júri.
A questão substancial: o prémio tem o valor de aproximadamente, digamos, 5 000 euros. Sim, leu bem: 5 000 euros. Mil contos. Nem mais.
Notem a cláusula que institui os valores: 100 000 euros. Mas notem as seguintes: o premiado só receberá direitos de autor depois de vendidos 70 000 exemplares. Interessante, não é? Além de que cede os direitos para exploração (sendo exploração a palavra certa neste contexto) em todos os “suportes que existam ou venham a existir” durante vinte e cinco anos (Vinte e cinco! Um contrato de edição costuma ter 5 ou 10... Enfim...) Ora façamos umas contas: 70 000 vezes 10% de direitos vezes, suponhamos, 15 euros de preço de capa: 105 000 euros. Assim, o prémio é de 5 000 euros. Os outros 100 000 euros não são prémio: são um adiantamento por conta de direitos de autor.
Mas os escritores portugueses agradecem à Leya a instituição do maior Prémio de Adiantamento de Direitos de Autor em toda a área geográfica da língua portuguesa, decidido por um júri que irá ter acesso apenas aos que os meninos e meninas da comissão acharem mais giros. Obrigado, Leya. Obrigado. Mas claro: só concorre quem quer. Valha-nos isso.
10 comentários:
Não pude deixar de expressar o gozo que tenho em ver na "blogo(luso)esfera-literária" uma triste verdade tomar letra: e sobretudo o discernimento necessário para o apresentar.
Muito bem (sem condescendência, que nem poderia haver). Esperamos que continue.
Primeiro deixe-me ressalvar que estou de acordo com alguns aspectos aqui abordados quanto ao tema em apresso. Contudo, é preciso chamar a atenção para uma interpretação grosseira e errónea do regulamento que aqui foi feita.O vencedor do prémio Leya ganhará o montante em questão (com as devidas deduções ficais)INDEPENDENTEMENTE de serem vendidos os 70 000 exemplares;o que vem no regulamento alínea 14, é que após a venda desses número, o autor receberá 10% do valor de capa, isto é recebe mais dinheiro para além do prémio. Logo, julgo que a sua interpretação pode levar a que os leitores formem ideias erradas do concurso.
Muito obrigado pelos vossos comentários. Quero, no entanto, referir que não foi feita qualquer interpretação grosseira e errónea do regulamento por quanto está bem explícito que o vencedor receberá os 100 000 euros (deduzidos os impostos, coisa que já dava outro post, porque pelo que sei os prémios costumam ser entregues em valor líquido ficando responsável pelos impostos a entidade que os promove). É exactamente isso que diz: é um adiantamento de direitos de autor. E aqui está bem explícito que irá receber esse dinheiro. Não como prémio, mas como adiantamento pelos direitos de autor até aos 70.000 exemplares. Mau era se não recebesse os 10% de direitos das vendas posteriores. Já é mau que chegue não receber das anteriores. Em princípio um prémio costuma ser dado sem se ter de vender um exemplar...
O Grupo Leya chama-lhe regulamento mas a mim parece-me bem que são cláusulas de um contrato (de compra e venda).
O que é realmente lamentável é o critério selectivo das obras...
Será que não seria boa ideia a Leya utilizar o novo programa de detecção de plágios (prévio a qualquer júri). Isso sim! Parecer-me-ia medida altamente pertinente, valente e higienizadora ... vale.
Aldrabice pura! Não canso de o dizer.
cuidado, jorge.
quem tem telhados de vidro não atira pedras.
ainda nos está a todos na garganta a ultima ediçao do premio daniel faria em que um escritor, todos sabemos qual é - e não está em causa a qualidade que tem - com uma escrita muitissimo reconhecivel, o maior sucesso em termos de poesia da quasi, levou para casa o premio.
não digo que houve "embuste", não sou tao peremptorio. mas que pelo menos falta de etica dos intervenientes houve, editora incluida. refira-se que o premio daniel faria "tinha" como intuito promover a chegada de novos autores ou potenciar os menos conhecidos.
seria bom que se retomasse o bom senso. não é tao bonito premiar-se alguem apenas pelo seu mérito e fazê-lo de forma a que não reste a mais pequena duvida?
deixo-te isto para reflexão.
sou um grande fã da tua escrita.
Tiago
Caro Tiago
obrigado pelo teu comentário. Embora não concorde com ele. O prémio Daniel Faria de 2008 foi ganho pelo José Luís Peixoto exactamente da mesma maneira que Rui Costa, Paulo Renato Cardoso e Catarina Nunes de Almeida ganharam: sob pseudónimo. Não julgámos - nem podíamos! - o "reconhecimento" da escrita do autor vencedor mas antes a sua qualidade intrínseca, julgo que inquestionável. Espero, sinceramente, que mais autores "reconhecidos" participem. O júri, não sabendo qual o seu nome - o envelope está lacrado e só abrimos depois de decidido o vencedor - cá estará para julgar.
Abraço
Jorge
Concordo com a questão levantada em seu comentário acerca da leitura dos originais pelo júri. Era de ser esperar que grandes nomes viessem a ter a palavra final sobre as obras e, para tanto, deveriam ter total conhecimento de causa. Quanto ao restante do comentário, só posso dizer que a nós, ilustres mas desconhecidos romancistas - sedentos que somos por oportunidades quaisquer que sejam - o pouco com Deus é muito. Só quem não passa frio pode se dar ao luxo de reclamar da qualidade do cobertor oferecido.
Ora, não vamos agora maçar o júri de um concurso literário com a leitura de todas as obras que são submetidas para apreciação. Sim, para levar a cabo tão laboriosa e entediante tarefa, temos os outros júris. Sim, sim, uma espécie de sub-empreiteiros que dizem aos que realmente dão a cara no projecto quais as obras que passam na fiscalização, e que devem ser licenciadas. É um processo bastante similar à realidade das obras públicas. Onde está a piada disto tudo? Bem, usando uma expressão em inglês relativamente conhecida, e dedicando-a aos participantes do concurso: "the joke is on you!"
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